06 janeiro, 2017

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR



O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

 Quantidade enorme de gente sem relação entre si, e que procuram, pisando os mesmos espaços, o mesmo tempo.

Roupas penduradas, vasos partidos que espalham terra. Plantas tombadas viradas a sul. Baldes de plástico como latrinas.

Meninas sem idade e seminuas. Uma quase mulher, feições fugidias como se com vergonha própria, em permanentes caretas desajeitadas e seios espremidos e murchos.

Senhoras com costuras atrevidas e folhos marcados na bainha como partituras.

Homens fantasmagóricos, encalacrados numa imagem. Sabedores de tudo e de todos, como mágicos fantasiosos, revirando a cabeça no sentido contrario do corpo. Malabaristas da vida.

Vendedores de certezas ocas com roupagem de deuses ancestrais, debitam frases para um público gaseado.
Um mundo paralelo e ilusório. A promessa de tudo, A recompensa no final do arco-íris.

Mulheres santificadas em frases rítmicas, entrecortadas por decibéis tenebrosos, cáusticos e violentos. Tão rude, que subitamente o ritmo abranda e os olhares vagueiam uns nos outros em busca de uma explicação.

O meu mundo não se parece com este mundo.
Um cheiro a doce e azedo de pouca água. O comboio que parte sem mim, na direcção do destino, enquanto os dias cozidos uns nos outros, colados em meses sucessivos numa inquietude permanente.

A minha cidade é um corrupio de casas e carros e gente que se mistura e percorre espaços em néon crepitantes com anúncios de natais sucessivos. 
Casas afogadas noutras casas e um rio que se desunha para romper, tal como um namoro de geografias próximas e sexo intenso.

Por essas casas pessoas dormentes, lanternas de ferro forjado nos penduricalhos exteriores e reflexos de azulejos e palavras de acolhimento em placas cozidas de cerâmica envidraçada.

Como a luz de Lisboa que se intromete pelas janelas, pelas portadas e pela alma.
Dos olhos tão cheios de água, esta luz penetra tão fundo que deixa quase transparente um coração inquieto e dois pulmões que de tão abstratos sucumbem um contra o outro.

E por lá vivem canastrões de pé quarenta e cinco, unhas com verniz, o que dá um toque mais amarelado aos dedos de cigarros de três dias e anel de monograma no mindinho.

E saltamos assim de um para outro ano, a pés juntos ultrapassando a linha do equador, como se entrássemos num mundo novo.

Um beijo, uma taça de champanhe, doze passas de uva, doze badaladas, uma nota na mão direita, pés em cima da cadeira, e gritos de festejos esfusiantes.

A mesma lua, o mesmo céu, as mesmas flores, a rua esventrada, o frio a cortar, uma chuva de “molha-tolos”, gente desconhecida no mesmo espaço procurando os mesmos desígnios.

Meninas já maduras gaseadas num mundo de promessas falsas.
 E a vida vai rodando neste mundo de pernas para o ar.  





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