QUE TE DIZEM OS OLHOS



Que te dizem os olhos ? 

Olhares inquietos, verrugas de água no vidro da sala, espelhos sem reflexo.

Um casulo em contraluz. Os passos do inverno, cautelosamente chegando devagar

 Os pequenos ódios remoídos, como a sombra da mãe por perto, as pregações, o não querer saber, a Tia Henriqueta e o rímel três partes ao lado.

Os espartilhos fazem morrer tiras nos músculos abdominais, os cremes escorrem agarrados ao suor como cal de parede sem pintura.

O desprezo pelos óculos dele, A lente difusa com que o vê, as frases relampejantes em que te atiça, e a velha tia, uma velha tão azeda que até os casacos tigresa desmaiam aflitos nos ombros.

Veem-se gradações de luz, filtradas por latões de cobre, peças espalhadas, numa desarrumação aparente.

Silêncios remexidos por dentro, uma aceitação, a dádiva da vida num olhar.

Um olhar tão cheio de nada, um nada tão cheio de tudo e o medo que algo saia de dentro do tudo e o soterre.

Formigas na barriga, um inchaço no peito, a voz retida em impulsos como sons de latas a bater. Dedos remexidos na pele, o deslizar no soalho, fotografias a sair de envelopes na mesa do canto. Prenúncios de rugas no cantinho da boca.

Pegavam-se colando post it´s, para nunca se perderem e para não perderem nunca o sentido das coisas que diziam e escreviam.

Pelo chão, espalhados, papéis com poemas dentro, ou desenhos, rabiscos escritos ou pintados.

Para não se perderem num papel em branco. Tudo tinha de ser preenchido.
Tal como eles tinham de se preencher.

Um dueto mágico de cânticos, olhares para os minaretes nas orações dos fiéis.
Os abraços enrolados, o céu tão sombra e luz, a mão dela no ombro dele.

Beijos engalfinhados noutros beijos, o dentinho encavalitado, uma equação a dois, olhares inquietos, espartilhos que mirraram os ódios.

Cadernos pautados com frases a “bold”, duas alíneas conjugadas, uma “frase chave” e uma pergunta varias vezes repetida…

- Podes-me dar o Céu?
– Sim… e até posso rebentar uma nuvem só para ti












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