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A mostrar mensagens de Dezembro, 2017

DESORDENADA VIDA

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Cheiro de loção barata para a barba, dentes postiços pontapeando as gengivas. Óculos como rãs saltitando entre as orelhas e a cana do nariz. O globo ocular fora e dentro num estrabismo confuso. As cigarrilhas do velho “Pastas” mexiam sozinhas, penduradas no lábio de baixo, agitando levemente o fumo, gotejando saliva, como cera em lacre. Era este desaforido viajante, na insubmissão de quem não dorme na mesma cama que se agastava em gestos circulares, calcorreando a Praça Velasquez, pé direito-pé torto. E aparecem assim, aqui e ali, outros velhos de barba grisalha e cabelo seboso sem pente, roupas bafientas numa opulenta miséria, garras em vez de dedos, coçando-se réstias de dignidade, sorvendo beatas apanhadas ao acaso em qualquer frincha dos paralelos de S. Bento. No inverno quando o rio Douro se esbatia nas pedras da Ribeira, e com um olho espreitava o funicular dos guindais, graúdos gelatinosos como pirilampos sem luz, debitavam acordes grotescos enquanto a malta chapinhava nas poças …