REENTRANCIAS DA LUA



Igrejas povoadas de velas pingando cera, encostadas umas às outras como se dormissem, e os painéis dos santos de olhos bonitos que nos inquietam.

Sombras estreitas de viúvas e velhos mexeriqueiros como caturras, despejando do porta-moedas restos de côdea de pão.

A minha impaciência soletrada três vezes, o estuque da parede desbotada da humidade, as molduras de família sem pressa, enternecidos uns, tranquilos outros,

 E o relógio de parede num descompasso arrepiado, até rebentar com todas as horas e minutos do mundo numa algazarra histriónica.
Agora, parece que o tempo não se altera mas eu no interior desse tempo vou envelhecendo pouco a pouco.

E eram as horas da toma do bicarbonato, do chão limpo com creolina e a elegância do gato persa na varanda, cuscando as cretinices da vizinhança do prédio em frente.

Sente-se o cheiro do peixe do lado do rio.

A lua gorda presa à água e cristais finos saindo dela na direção da noite.
O licor de tangerina adocicava na mesa por cima do naperon com argolas, e o cão da vizinha completamente cego e a vizinha completamente surda.
Por vezes de noite, sons sibilinos de piano. Sons envergonhados na noite.

Recostado no sofá, janelas abertas, imagino os latidos do cão, em compasso com o dedilhar do piano, enquanto o retrato do comendador, meu avô, com as medalhas acima dos botões da farda, três centímetros por cima, um dedo prá direita medido a régua e esquadro.

A vizinha sentada na poltrona do lado coxo, penteado de cachos, sobrancelhas finas, rímel desbotado e a orelha seca de surda, tinha um olhar languido na direção do retrato do meu avô.
Sorrio para dentro, imaginando turbulências.

Só assobios do vento, - dizia a minha avó, distante, como que avisada dos perigos do temporal.

As águas nas veredas deslizam sem rumor, o musgo plantado muro abaixo e a calçada aos pedaços.
Do lado de dentro do vidro fosco, apenas o embaciado do meu respirar.

Na família existe um painel de santos medievais. Uns com setas e caras lisas como papel de parede sem retoques.
A avó é tão beata que os azulejos são pias batismais e no lugar de molduras de família, santinhos de igreja amarelecidos pelo tempo e crucifixos com terços acoplados.

Neste tempo as férias eram passadas em línguas de areia ao sul, com os pios das gaivotas e os safanões dos avós para as crianças não gritarem.

E é neste reencontro que me vejo com elásticos nos dentes de cores várias, enquanto o compasso das ondas, sete vezes sete, ou o sereno correr da ria, no vazio do espaço que não preencheste, nem as minhas borbulhas flamejantes ficavam no sonho de alguém.

- O meu tempo não escoa assim, dizia a Avó.

E eu, incisões na pele.
O caminho sinuoso da paixão, o frio nas entranhas da casa, vasos floridos, livros espalhados desordenadamente num vendaval de frases, parágrafos e consoantes.

O nariz torcido da Avó, benzeduras no terço e o cristo pendurado numa imagem de prata.
Eramos espaço entre os dentes numa simetria perfeita.

E guardava-te em mim aos pedacinhos no sonho, como um puzzle, confissões oxidadas no tempo.
 Duas rezas, um entrelaçar de mãos, rascunhos sem papel e o olhar da minha avó benzendo-se a ela benzendo o ar, benzendo-me a mim.

Sente-se o cheiro do peixe do lado do rio, o vento sopra frio, o relógio a descompasso replica horas a desoras e eu sorrio para dentro pintando memórias.

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