03 junho, 2019

UM BARQUINHO DE PAPEL




UM BARQUINHO DE PAPEL

Falavas sobre onde se adivinham os dias, as invenções de luares de azul, o prazer de pisar a terra, gente em cubos de felicidade.  

Onde eu sentia nos arcos de céu a elegância dos teus olhos, que mais não eram do que armaduras para me protegerem.

E ficava mudo com a eloquência das tuas palavras e o teu saber incrustado em astros, do poder dos gestos das tuas mãos, das paredes que derrubavas com o encanto suave do teu afirmar.

Dizias… - “Não esqueças sobretudo de olhar devagar.”

O passado acorda-nos. O futuro fica já ali e inventamos tempo do tempo que não temos. Tal a velocidade em que queremos viver.

E a vida é feita de reencontros. 
Vagas de luz, uma mudança na escala do olhar.

Tinhas sobretudo abundância de razão e consciência. Sabias o espaço que podia percorrer. Primeiro pequenos passos, depois passos inteiros.

Amparavas-me do chão que não existia, do punhal de lume e não deixavas que desabasse o mundo na minha direção.

A primavera ficava te sempre dorida, e espreitávamos o verão na iminência das ferias.
Barquinhos de papel, que eu navegava contra ventos fortes e mares adversos.

- “Não esqueças sobretudo de olhar devagar”.

Eras como um Anjo ou pequeno Deus a quem olhava deslumbrado.

A ternura, as palavras certas no tempo exato, o escutar os meus silêncios.

Risquei o ultimo fosforo e a acendalha sorriu num fogo denso queimando as madeiras acocoradas. 
As tuas palavras como que, ainda me habitam e vagueiam e vejo-as subirem neste fogo disperso na direção do teu céu.

Voltar aqui é entrar numa casa em ruínas, ver paredes tombadas, espaços desabitados, móveis por arrumar. 
Pouco sobeja de mim inteiro. Uns pedaços aqui, outros ali. Estilhaços.

Voltar à casa em ruínas é um reencontro, um novo aperto, o abraço esperado.

As laranjas caem fingindo das árvores, desfazendo-se num silêncio mais doce, e prometo que jamais te deixo fugir, pois não quero saber como se passa o resto da vida com o cérebro num cárcere para a alma.


28 abril, 2019

INFÂNCIA EM PONTOS CARDEAIS




- “Quero um café de saco, por favor”.


E com esta frase, os olhos brilhavam. Todo eu crescia.
E sentia isto como um feito enorme.

Num instante sentava-me de novo, enquanto o café, colocado na mesa, e, eu, “homenzinho crescido”, suspirava deliciado a ver a avó, as suas amigas, o café e o bolo de arroz que chegava para mim envolto numa cinta com umas letras ainda indecifráveis.

Naquele tempo, se eu pudesse, invariavelmente pediria a todo o instante ao Sr Alberto do café Bonfim, “um café de saco, por favor”.  

O vizinho António fumava dedos e fumo. 
Coçava-se entre as pernas e a baforada. Usava um pente no bolso da frente do casaco e um inevitável lencinho no pescoço que lhe dava ares e trejeitos.

A vizinha Alice, pernas engalanadas com metros de gaze enroladas, sempre de sofá, a rodar os polegares. Por vezes encostava-se à varanda, arranjando vasos de flores. Sempre as mesmas, sem folha que se aproveitasse. Mexia na terra e olhava a rua afinando o ouvido para as notícias frescas.

Diziam que servia cafés como se estivesse na feira.
Pendentes a tilintar, unhas coloridas e um corpo fácil. Coxas largas e as nádegas como batentes.
O queixo estava carcomido, um olho difuso, pálpebras desconexas.

Quando pensava ondulava a ideia até se ver o naufrágio nas meninges, explicado em cada gota desse mar, a eloquência da língua, no meio da falha dos dentes da frente.

E eu minúsculo no meio do café.

A minha avó... – “Isto não é sítio para o menino”

As folhas nas árvores num barulho como se aplausos, e nós aos pontapés na bola em equipas de três, no estádio improvisado da Capela Montebelo.

Cópias e ditados feitos na mesa no meio da sala. Espaços manchados, o “naperon” retirado e letras engalfinhadas a correrem umas atrás das outras. Acho que cheguei a ver algumas do meu irmão e primos.

As fisgas pendiam dos bolsos, os tostões juntavam-se para comprar o “guiador à corredor”, que fazia da bicicleta “o fórmula 1 da avenida”.

“Ganchetas” empurravam rodas na direção certa e o pião brilhava na calçada enquanto outros contavam até dez para jogar ao “pilha”.

Crescíamos entre brincadeiras soltas, paus, pedras e bolas. Conversas de crescidos, mimos e alguns açoites. 
Os arranhões acompanhavam-nos, assim como as fugas da policia que habitava cada esquina.
O silêncio era ensurdecedor e os olhares barulhentos

A minha mãe com os óculos na cómoda, perdidos, como se ganhassem vida, os olhos de céu do meu pai. 
As gravatas do meu avô, sempre impecáveis, e a minha avó Espanhola, muito redonda, quase sem tornozelos,

- “Que hermoso estas”.

A ponte engalanada pelo fim de ano na espera do fogo-de-artifício que se lança em beijos e esboços.
Pontos cardeais de um Porto antigo, tão belo que só esperam que abra a porta para a vida entrar no filme.

O autocarro com dois pisos, o elétrico num arrepio entre carris. A Foz do Douro num rodopio de gaivotas, o tempo frio, distante.

E oiço dentro de mim o som de papel a amarrotar. Um pomar pela vidraça, o apito do comboio na encruzilhada em que se move. Duas linhas, uma estação.

- “Um café de saco por favor”. 

E pode vir com um bolo de arroz povoado de vozes e uma cinta que o protege com frases ainda hoje indecifráveis.

- “E isto é lá lugar para o menino?”

12 abril, 2019

NÃO ME DEIXES NO OUTONO




Já não me importo com as horas.

São uma e quinze desta madrugada e a chuva cai em bátegas furiosas, como se zangadas.
Um idoso ébrio acende um cigarro por detrás do candeeiro, enquanto eu me desarranjo encostado ao vidro da sala, sem posição nem espaço com o corpo mole e cansado.

A noite de Outono é fria e imperfeita, como a folha que teima em cair de cor acastanhada envolta em gotículas de chuva fria e desperta.

O meu silêncio está revestido de ansiedade, e nesgas de luz rompem desenfreadamente subindo a parede branca por entre os quadros de família.
Parece-me ver o sorriso do meu avô, na minha direção, enquanto a avó, tímida, desvia o olhar.

O mundo está desapegado, caminhos difusos, e gente com apoplexias sem gente dentro.

Enquanto pego no pacote de açúcar, já tu mexes o chá, com a etiqueta pendurada na camisa acabada de comprar.

- São pãezinhos com manteiga, dizes.

E eu sorrio entre o espanto e a vergonha, desatento à vida, encantado com a magia que saía engalanada, nas frases debitadas e certeiras.

Já nem me lembro como gostei de ti e contudo era desta forma que mexias o chá.
O teu cotovelo inquieto, as mãos que não param, os novelos que fazes com os dedos uns nos outros.

A minha saúde frágil, a praia nos teus olhos, a maresia do teu corpo e o sal nos lábios que debitam palavras tão sensatas que esqueço a minha própria voz.

Azinhagas desertas, o choupo fronteiro, o teu perfume, o meu nariz inebriado no teu pescoço e só me lembro da tua voz salgada e o frasco de soro pingando liquido lentamente nas veias entorpecidas.

E os teus dedos uns nos outros enlaçados.

Vertebras como punhais, a explicação da vida que não chega, mais um capítulo no livro que desfio.

Os botões da camisa sempre fáceis, a minha gravata ajustada, e os fios pendurados nos rebordos de mim.

A tua dificuldade com os óculos. Os baloiços no jardim em movimento sem ninguém com eles e uma penumbra misteriosa que nos envolve as desgraças do corpo.

Fechadura e trancas na porta da vida, como se o outono viesse mais cedo e as nossas mãos se tocassem entre o açúcar e o chá.

Pouco me importo com as horas.

Já vai alta a madrugada, o pacote de açúcar aberto na palma da mão escoando por entre os dedos as partículas, como o fio da vida a terminar.

Tenho silabas tombadas no livro por acabar, o candeeiro tosco com pouca luz, o gato que se lambe aos meus pés, e os meus dedos tricotando musicas pelo ar.

Não me deixes neste Outono.

Temos pãezinhos com manteiga e doce acabado de fazer, o café da avó no parapeito, os vizinhos caminhando em grupos dispersos, a minha visão difusa, e o soro a três tempos na veia fraquejada, enquanto a casa em silêncio me conforta, mesmo que as dores apertem, e eu veja a vida em pano de fundo.

09 março, 2019

DESSES LAÇOS




Desses laços

Caixas de cartão, legos por concluir, cromos e bolas de trapos. Os meus brinquedos e a boneca laurinha.

Os teus olhos que brilham entre o toque das 15 na saída do liceu e o meu despertar tosco para a lua onde vivo.

Luz de Outono, enquanto nuvens deslaçam temporal. Frases ténues e moribundas, nos laços que te prendem.

Finjo que leio aqui deitada, e no entanto não me importava de te abraçar.
Um pouquinho só. São tempos que não existem, estes. 
Os ponteiros do relógio, as palavras cruzadas sem soluções. A torneira do lavatório num desperdício ritmado

Silabas tombadas, frases inquietas. O gato preguiçoso lambendo o frio na janela.

Os meus sonhos que te enlaçam, a minha corrida no elétrico da manhã, e uma alma nobre recheada de gelado de morango.

A minha saia de pregas, camisa de cetim e os laços em voltas desfeitas que te inquietam.
As tuas frases acertadas com o ritmo da valsa, a exacta dimensão da vida, o meu mundo na tua mão.

Candeeiros toscos, rua engalanada de festim, os vitrais da igreja matriz, a tua mãe duas cadeiras ao lado, e eu inebriada dos teus gestos.

Quando falas comigo, tens uma voz doce, profunda, que me atravessa o corpo inteiro.
Olhar intenso, brilhante, enérgico que me conhece de há muito…de outra vida.

O sorriso…ah… o sorriso desarma-me por completo. 
É impossível resistir aquele sorriso. Franco, aberto, de quem dá tudo o que tem. Puro magnetismo que me puxa. Que me leva atrás.

Só paro no momento em que encosto o meu pequeno nariz, naquele recanto do pescoço. O recanto que cheira a céu.

Depois…. Bem,...depois é só perder-me naquela imensidão de azul.

06 março, 2019

TIRANIA DA NORMALIDADE




TIRANIA DA NORMALIDADE

Dois dedos no pulso em medições.

Fechado numa concha, vagueio dentro dela como vagueio por dentro de mim.
Quantas vezes nos afundamos no vazio, no atoleiro da vida cruzando ainda mais a angústia.

Paramos uma noite, um dia, um mês. Anos.
Anos a fio sem nos encontrarmos.

Como num dia normal, alguma ansiedade, algum frenesim interior.
Uma frase, um gesto, atenção revirada, o foco numa frase, um calor intenso, a cabeça esquisita como se já não habitasse aquele corpo. Despegada. Minutos feitos horas, o ar rarefeito, o coração que cavalga desordenado.

Perplexos com a nossa cabeça. O corpo todo a bater mal, ansioso.

Num instante parece que todos os órgãos se juntaram para nos expulsar. 

Sentimos que estamos a mais. Nenhum sentido, nenhum prazer, inutilidade, frustração, inquietude e apenas o domínio de um pequeno espaço. Aquele espaço.

Uma pequena parcela de sofá onde nos enroscamos quietos, direitos ou a dormir, para que o tempo passe, para que tudo passe, para que amanhã seja possível um novo dia e tudo mude, como num passe de mágica.

A solidão da minha cabeça, dos meus átomos.
A incapacidade de suster a respiração fora do ar do tempo. O coração em taquicardias galopantes, sair fora do corpo.

Que corpo é este? Que distância é esta entre aquilo que penso e o corpo que tenho?

Verdade ou imaginação, na incerteza permanente do céu ou inferno, de viver ou morrer.
Uma passagem do tempo, inconsciência. Corpo que se arrasta desalinhado. Sem cobertura nem alquimia, alma presa em combustão.

A vida corre. Nada fica parado no tempo. Um vislumbre.
Pequenas reações, evolução pouca, o vazio a inquietude, o desamor e desapego. Apenas o espaço que se habita num canto do sofá.

Tudo dói, tudo custa, tudo é complexo. Desacreditar. O Inferno.
O inferno de não estarmos a existir.

Em simultâneo o carimbo social. Uma couraça inviolável, um super-guerreiro triste e melancólico, um ser resistente numa vivência social castradora, de “post-it´s” marcantes.

Gostaria de guardar e poder usar todos os segundos que me mantêm acordado.
Caretas ao espelho, exercícios faciais num controlo inquieto e medidor da sanidade. 

O medo da sombra, de todas as sombras. Do escuro e do claro, do sol e da chuva, do vento, da imaginação da taquicardia e da cadência.

Dois dedos no pulso em medições.

O desconforto de que a vida nos traiu… Os círculos completam-se em novos círculos, demasiado iguais. Sempre iguais.
Alma isolada, bifurcações e caminhos cruzados. Batidas cardíacas com propulsão, voo em céu aberto, o caminho do céu.

O controlo para dois passos, preparação para três passos. Meia volta em desconcerto. 

Caminho lento e inseguro.
O domínio de mais espaço, de outro espaço. A conquista perene, insignificante.

Existência, coexistência, o conhecimento, a maresia, o vento fresco e limpo. A coragem dos saltos em obstáculos imperfeitos. O recolhimento.

Corpo que se arrasta desalinhado. Sem cobertura nem alquimia, alma presa em combustão.

O meu olhar menos turvo, coração em batimentos sucessivos e ritmados, um céu mais azul, o gato que me concede tempo, a minha vizinha surda com a roupa no estendal, os meus livros numa espera sôfrega, o teu olhar na direção do desejo.

Dois dedos no pulso em medições… numa tirania da normalidade.

20 fevereiro, 2019

Rua da Falsidade





Subiam a rua da falsidade

Gente travestida de seriedade acoplada em risos cínicos e flamejantes.

Insetos voadores povoando cabeças alheias, répteis ignóbeis triturando passos na passagem dos incautos.

Gente sóbria devorada pelos cantos e bêbedos acotovelados em anéis de sobriedade.

Subiam a rua da falsidade.

Uns quantos garimpeiros dão-se ar de sofistas em esplanadas de vai-e-vem. Gente sem léxico mas com rancor, sem matéria mas neblina.

Pacóvios feitos gente, umbiguistas de lama e um corpo enlatado em poder, entrincheirados no medo e na cobardia com tetos de cristal rarefeito e alma vendida a três vinténs.

Inquieta vida de mentira, ilusionismos fétidos e malabaristas desgarrados.

Subiam a rua da falsidade.

Paredes meias com a candura, inebriados nos risos de crianças para quem a vida se estende no dorsel de um cavalinho de prata.

Palhaços e ilusionistas, malabaristas opulentos e miseráveis, sortudos e azarados, opositores fúteis, reis por segundos sem alcance nem valor, inertes numa nebulosidade de papel de fotografia fosco.

Vivemos entre alçapões sociais, espelhos e máscaras, bom e mau, belo e feio, sim e não, verdadeiro e falso, audaz e medroso.

Subiam a rua da falsidade
Gente de olhar vago, espreitando por cima de ombros desnivelados. Sorrateiros sem luz nem cor.

Relatadores rasteiros das vidas alheias, criaturinhas descontroladas de gestos repetitivos num vão de escada.

Vão subindo assim lentamente, essa rua da falsidade

28 dezembro, 2018

EFIGÉNIA






EFIGENIA


Efigénia tinha dores nos quadris, vivia agarrada a voltaren´s, mais uns quantos para outras maleitas.

O primo Pirolito tinha taquicardias como barco em mar revolto em apoplexias do coração.

Os rins. Sim, os rins que a inquietam para tardes no centro de saúde enquanto a avó cirandava com os joanetes esticados gritando para todos “a mim é que me dói”.

Neste tempo as férias eram passadas em línguas de areia ao sul, com os pios das gaivotas e os safanões dos avós para as crianças não gritarem.

 A Efigénia sobrava-lhe corpo em sítios onde não precisava dele e rareava onde os olhos se afunilam sorrateiros.

 - O meu tempo não se escoa assim, dizia Efigénia, vigorosa.

Por vezes quando se olhava ao espelho via algo diferente.
Mesmo que faça gestos, caretas, há qualquer coisa de diferente. O outro lado da alma.

Pareço eu e não sou eu. São as minhas máscaras, dizia ela em voz alta, tornando o ambiente em casa mais tenso, levando a velha avó a recitar prédicas lamuriosas, batendo o terço contra o peito, como se exorcizasse demónios.

Mas Efigénia era mesmo assim.

Nunca sonhou em cima de um monte, não cantava nas veredas, nunca mergulhou no rio que extravasava leito à sua porta e mesmo lá no lugar, ninguém a olhava.

Dizia ter a idade mal calculada, sonhos como fiapos de algodão e um corpo enlaçado e invisível.
Uma língua forrada de palavras por dizer, frases por completar, cicatrizes por curar.

Um sorriso nervoso.
Saltos ao pé-coxinho, nuvens de pó, um fio no cais do desejo, uma vizinha gaiteira em frases trocistas e estridentes.

Holograma de gente, ocupando um milímetro quadrado por um quarto de lado, inquietude pelos poros, raiva escarlate pelos dedos, numa revolta suave de juras sucessivas.

 - Por mais que tente, não me solto- dizia.

E lá vinha o espaço, e o leito do rio, os barcos ancorados em espinha, o funicular dos guindais à espreita, roupa estendida nos beirais, o cinzento do tempo que me engole, papelinhos guardados com frases soltas, e o suspiro caprichoso e solto nos peitos sem selo nem remetente.

E já és só tu na fotografia, uma ruga sem rosto, uma bíblia na cómoda, um espelho sem uso, uma corrida sem tempo, a máquina que sustém respiração pela metade.
  
Folhas de silêncio e desalinho, uma cidade que dorme.
Sombras chinesas, decalques de lua. As tuas pálpebras semicerradas, ritmos que se calam, respiração sem espaços.

Janelas sem vizinhos, vultos ocasionais, a chama que se apaga, um rio sem leito, e a última vírgula na última frase do teu destino.

UM BARQUINHO DE PAPEL

UM BARQUINHO DE PAPEL Falavas sobre onde se adivinham os dias, as invenções de luares de azul, o prazer de pisar a terra, gente em c...