30 agosto, 2018

ARROZ DOCE






ARROZ DOCE

Era uma tasca. Tasca de coletividade nortenha. Povoada por novos e velhos, vizinhos e compadres, maduros e desterrados, inquietos e retorcidos.

Vamos conservando a infância escondida, dentro de nós, para uma ou outra vez, despertá-la, tornando-a viva.

O Tozé com um pião a rodar entre os dedos, poisando na mão, enquanto eu, carrinhos de chapa em correrias com pistas improvisadas no corredor de casa.

Um velho jogava dominó. Boina sobreposta nas sobrancelhas. Torto, abatido, como um carro sem conserto.

Levanta-se cambaleante, creme de mentol nas bochechas porque dói um dente.

Torto, quase circunflexo, dançaricava enquanto o crucifixo ao peito dançaricava também.

- Gostas de arroz doce?

O amigo João, sempre sensível segura lagrimas no interior das pálpebras.

A tromba do elefante pedindo moeda para tocar o sino, a camisa do João cheia de nódoas, os guardanapos de papel desfeitos na chávena.

Viver por vezes cansa-me a alma. Cansa-me no sentido físico de correr desalmadamente e ficar com os “bofes” de fora.

Ao meu lado, mais cansado do que eu, um gordo, rosadinho que nem porco, a suar lustroso, sapatilhas ultima geração, com os pés a abarrotar de cheios e uns óculos verdes metálicos “da moda”

Tento descansar, virando e revirando, e do outro lado, um rapaz esguio cheio de sebentas da faculdade e um livro de algoritmos e física quântica às camadas. Tem uns headphones e finge que estuda.

A mulher do gordinho vem visitá-lo e explica que está frio e até lhe sai o cortinado pela boca (palavras dela) querendo dizer que se vê a respiração como nevoeiro.

E lá vai a minha vizinha lamentando-se das misérias da vida mais as doenças que não a largam, -“ainda ontem estive tão mal da coluna”, segurando um pacote de bolos secos.

O marido canastrão, sentado no alpendre sem dois dentes da frente, como se um pente carregado de falhas. Perdigotos saltitantes sempre que balbucia qualquer coisa, que a falar ninguém entende.

_ “Lembro-me de ti pequenino”.

- “És o Pedrinho não és?”. -O raios-parta a velha mais o avental que a veste e umas sandálias com tiras, seja inverno ou verão.

- “Eras tão pequenino…, dois dedos na boca, enquanto agora, vê lá, tão grande que estás.

 E eu, dois dedos na boca, uma novena, o Chico Barbosa que desapareceu faz mais de um ano e um pressentimento.

Estas são duras. Tão amigos, palavra puxa palavra e um dia nem palavra.

Passou um mês e nem noticia. Depois, um cantinho do jornal, o aviso da Isabel e o Chico foi-se embora.

-Gostas de arroz doce?

E eu, lágrimas que tapam o silêncio.

- Como será o mundo visto do céu, Chico?

Por vezes tento crescer mais e alcançar as nuvens como se por detrás delas, os amigos e familiares desaparecidos, e nós numa roda a rir.

- Gostas de arroz doce?



07 junho, 2018

REENTRANCIAS DA LUA



Igrejas povoadas de velas pingando cera, encostadas umas às outras como se dormissem, e os painéis dos santos de olhos bonitos que nos inquietam.

Sombras estreitas de viúvas e velhos mexeriqueiros como caturras, despejando do porta-moedas restos de côdea de pão.

A minha impaciência soletrada três vezes, o estuque da parede desbotada da humidade, as molduras de família sem pressa, enternecidos uns, tranquilos outros,

 E o relógio de parede num descompasso arrepiado, até rebentar com todas as horas e minutos do mundo numa algazarra histriónica.
Agora, parece que o tempo não se altera mas eu no interior desse tempo vou envelhecendo pouco a pouco.

E eram as horas da toma do bicarbonato, do chão limpo com creolina e a elegância do gato persa na varanda, cuscando as cretinices da vizinhança do prédio em frente.

Sente-se o cheiro do peixe do lado do rio.

A lua gorda presa à água e cristais finos saindo dela na direção da noite.
O licor de tangerina adocicava na mesa por cima do naperon com argolas, e o cão da vizinha completamente cego e a vizinha completamente surda.
Por vezes de noite, sons sibilinos de piano. Sons envergonhados na noite.

Recostado no sofá, janelas abertas, imagino os latidos do cão, em compasso com o dedilhar do piano, enquanto o retrato do comendador, meu avô, com as medalhas acima dos botões da farda, três centímetros por cima, um dedo prá direita medido a régua e esquadro.

A vizinha sentada na poltrona do lado coxo, penteado de cachos, sobrancelhas finas, rímel desbotado e a orelha seca de surda, tinha um olhar languido na direção do retrato do meu avô.
Sorrio para dentro, imaginando turbulências.

Só assobios do vento, - dizia a minha avó, distante, como que avisada dos perigos do temporal.

As águas nas veredas deslizam sem rumor, o musgo plantado muro abaixo e a calçada aos pedaços.
Do lado de dentro do vidro fosco, apenas o embaciado do meu respirar.

Na família existe um painel de santos medievais. Uns com setas e caras lisas como papel de parede sem retoques.
A avó é tão beata que os azulejos são pias batismais e no lugar de molduras de família, santinhos de igreja amarelecidos pelo tempo e crucifixos com terços acoplados.

Neste tempo as férias eram passadas em línguas de areia ao sul, com os pios das gaivotas e os safanões dos avós para as crianças não gritarem.

E é neste reencontro que me vejo com elásticos nos dentes de cores várias, enquanto o compasso das ondas, sete vezes sete, ou o sereno correr da ria, no vazio do espaço que não preencheste, nem as minhas borbulhas flamejantes ficavam no sonho de alguém.

- O meu tempo não escoa assim, dizia a Avó.

E eu, incisões na pele.
O caminho sinuoso da paixão, o frio nas entranhas da casa, vasos floridos, livros espalhados desordenadamente num vendaval de frases, parágrafos e consoantes.

O nariz torcido da Avó, benzeduras no terço e o cristo pendurado numa imagem de prata.
Eramos espaço entre os dentes numa simetria perfeita.

E guardava-te em mim aos pedacinhos no sonho, como um puzzle, confissões oxidadas no tempo.
 Duas rezas, um entrelaçar de mãos, rascunhos sem papel e o olhar da minha avó benzendo-se a ela benzendo o ar, benzendo-me a mim.

Sente-se o cheiro do peixe do lado do rio, o vento sopra frio, o relógio a descompasso replica horas a desoras e eu sorrio para dentro pintando memórias.

06 dezembro, 2017

DESORDENADA VIDA




 
Cheiro de loção barata para a barba, dentes postiços pontapeando as gengivas. Óculos como rãs saltitando entre as orelhas e a cana do nariz.
O globo ocular fora e dentro num estrabismo confuso.
 
As cigarrilhas do velho “Pastas” mexiam sozinhas, penduradas no lábio de baixo, agitando levemente o fumo, gotejando saliva, como cera em lacre.
Era este desaforido viajante, na insubmissão de quem não dorme na mesma cama que se agastava em gestos circulares, calcorreando a Praça Velasquez, pé direito-pé torto.
E aparecem assim, aqui e ali, outros velhos de barba grisalha e cabelo seboso sem pente, roupas bafientas numa opulenta miséria, garras em vez de dedos, coçando-se réstias de dignidade, sorvendo beatas apanhadas ao acaso em qualquer frincha dos paralelos de S. Bento.
No inverno quando o rio Douro se esbatia nas pedras da Ribeira, e com um olho espreitava o funicular dos guindais, graúdos gelatinosos como pirilampos sem luz, debitavam acordes grotescos enquanto a malta chapinhava nas poças de água e corríamos desalmados entre as vielas da Sé.
Os elétricos amarelos decoram Santa Catarina até Passos Manuel. Um tic-tic de arpas entoando melodias de um natal que se aproxima.
Vemos do alto do prédio janelas lascadas e madeira dobrada, amantes que se enroscam, quase sem braços, caricias exuberantes, gestos teatralizados, na sincera mentira daquela relação que não existe.
E era no ritmo sinuoso dos peitos esticados como guindastes, abóboras pequenas e saltitantes, que pecaminavam nos nossos olhos em órbitas como botões, interrompidos com guinchos metálicos do elétrico na complicação dos carris.
O tempo passa mole, escuro e peganhento adivinhando chuva, na simetria das pernas dos amantes em movimentos de cópula. E estendiam boca gulosa carregada de dentes encavalitados na direção da outra desinteressada, com desvios subtis, como fintas ondulantes do Maradona.
Juro que me parecia coberto de verniz, fumegando odioso num abanar absurdo de pavão com menos cor e elegância
E era na noite fechada, espreitando a claraboia do meu quarto que sacudia estes vultos do pensamento, rodeado de medo e escuro, ruídos brônquicos da minha vizinha Arlete, habitualmente inerte, insipida, insonsa, com ar insultuoso de buldogue, dando guinadas furibundas na casa de banho, até se deleitar noite fora, com qualquer beduíno de túnica comprida e brinco na orelha, amarrações no cabelo e barba mal parida.
O par de namorados, a arrulhar como pombos atrevidos, enquanto o escuro escondido atrás das nuvens, os protege e as luzes acendem, uma a uma vagarosamente como espasmos de tosse.
Amanhã, temos o ribombar das festas de um santo, lamparinas como balões, balões como naves voadoras, o beijo lambido da minha avó na testa como quem cola um selo e os chapéus do meu avô numa fila siamesa, moldura oval no móvel em retrato de família ”à La-minute”.
Isaltina, criada da casa, mais velha que o Cristo Rei, com metade da cara parada e a outra metade com tiques circenses, bojuda como um porquinho em dia de finados.
Saudades e lenços brancos pela janela do comboio. Despedidas do outro lado do vidro.
De tempos a tempos, uma cigarrilha na boca vazia de dentes, corpo de lagarta inerte numa folha, e adormecemos todos.
 O “pastas”, a Arlete, o Bexigoso, a minha avó e os putos enamorados presos por roldanas e batom num aproximar de hálitos, mais o comboio no primeiro apeadeiro.
 
E vemos do alto do prédio no silêncio da manhã, os socalcos do lado de lá do rio. Gente como barcos encalhados, rostos sobrepostos em camadas, transfigurados, e toda a desordenada vida pendendo do lábio de baixo, gotejando saliva, apagada também.
  

06 janeiro, 2017

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR



O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

 Quantidade enorme de gente sem relação entre si, e que procuram, pisando os mesmos espaços, o mesmo tempo.

Roupas penduradas, vasos partidos que espalham terra. Plantas tombadas viradas a sul. Baldes de plástico como latrinas.

Meninas sem idade e seminuas. Uma quase mulher, feições fugidias como se com vergonha própria, em permanentes caretas desajeitadas e seios espremidos e murchos.

Senhoras com costuras atrevidas e folhos marcados na bainha como partituras.

Homens fantasmagóricos, encalacrados numa imagem. Sabedores de tudo e de todos, como mágicos fantasiosos, revirando a cabeça no sentido contrario do corpo. Malabaristas da vida.

Vendedores de certezas ocas com roupagem de deuses ancestrais, debitam frases para um público gaseado.
Um mundo paralelo e ilusório. A promessa de tudo, A recompensa no final do arco-íris.

Mulheres santificadas em frases rítmicas, entrecortadas por decibéis tenebrosos, cáusticos e violentos. Tão rude, que subitamente o ritmo abranda e os olhares vagueiam uns nos outros em busca de uma explicação.

O meu mundo não se parece com este mundo.
Um cheiro a doce e azedo de pouca água. O comboio que parte sem mim, na direcção do destino, enquanto os dias cozidos uns nos outros, colados em meses sucessivos numa inquietude permanente.

A minha cidade é um corrupio de casas e carros e gente que se mistura e percorre espaços em néon crepitantes com anúncios de natais sucessivos. 
Casas afogadas noutras casas e um rio que se desunha para romper, tal como um namoro de geografias próximas e sexo intenso.

Por essas casas pessoas dormentes, lanternas de ferro forjado nos penduricalhos exteriores e reflexos de azulejos e palavras de acolhimento em placas cozidas de cerâmica envidraçada.

Como a luz de Lisboa que se intromete pelas janelas, pelas portadas e pela alma.
Dos olhos tão cheios de água, esta luz penetra tão fundo que deixa quase transparente um coração inquieto e dois pulmões que de tão abstratos sucumbem um contra o outro.

E por lá vivem canastrões de pé quarenta e cinco, unhas com verniz, o que dá um toque mais amarelado aos dedos de cigarros de três dias e anel de monograma no mindinho.

E saltamos assim de um para outro ano, a pés juntos ultrapassando a linha do equador, como se entrássemos num mundo novo.

Um beijo, uma taça de champanhe, doze passas de uva, doze badaladas, uma nota na mão direita, pés em cima da cadeira, e gritos de festejos esfusiantes.

A mesma lua, o mesmo céu, as mesmas flores, a rua esventrada, o frio a cortar, uma chuva de “molha-tolos”, gente desconhecida no mesmo espaço procurando os mesmos desígnios.

Meninas já maduras gaseadas num mundo de promessas falsas.
 E a vida vai rodando neste mundo de pernas para o ar.  





05 janeiro, 2017

QUE TE DIZEM OS OLHOS



Que te dizem os olhos ? 

Olhares inquietos, verrugas de água no vidro da sala, espelhos sem reflexo.

Um casulo em contraluz. Os passos do inverno, cautelosamente chegando devagar

 Os pequenos ódios remoídos, como a sombra da mãe por perto, as pregações, o não querer saber, a Tia Henriqueta e o rímel três partes ao lado.

Os espartilhos fazem morrer tiras nos músculos abdominais, os cremes escorrem agarrados ao suor como cal de parede sem pintura.

O desprezo pelos óculos dele, A lente difusa com que o vê, as frases relampejantes em que te atiça, e a velha tia, uma velha tão azeda que até os casacos tigresa desmaiam aflitos nos ombros.

Veem-se gradações de luz, filtradas por latões de cobre, peças espalhadas, numa desarrumação aparente.

Silêncios remexidos por dentro, uma aceitação, a dádiva da vida num olhar.

Um olhar tão cheio de nada, um nada tão cheio de tudo e o medo que algo saia de dentro do tudo e o soterre.

Formigas na barriga, um inchaço no peito, a voz retida em impulsos como sons de latas a bater. Dedos remexidos na pele, o deslizar no soalho, fotografias a sair de envelopes na mesa do canto. Prenúncios de rugas no cantinho da boca.

Pegavam-se colando post it´s, para nunca se perderem e para não perderem nunca o sentido das coisas que diziam e escreviam.

Pelo chão, espalhados, papéis com poemas dentro, ou desenhos, rabiscos escritos ou pintados.

Para não se perderem num papel em branco. Tudo tinha de ser preenchido.
Tal como eles tinham de se preencher.

Um dueto mágico de cânticos, olhares para os minaretes nas orações dos fiéis.
Os abraços enrolados, o céu tão sombra e luz, a mão dela no ombro dele.

Beijos engalfinhados noutros beijos, o dentinho encavalitado, uma equação a dois, olhares inquietos, espartilhos que mirraram os ódios.

Cadernos pautados com frases a “bold”, duas alíneas conjugadas, uma “frase chave” e uma pergunta varias vezes repetida…

- Podes-me dar o Céu?
– Sim… e até posso rebentar uma nuvem só para ti












23 novembro, 2016

Deixa ficar assim…






Dormes menos. Vês passar o tempo, quieto, sobranceiro, meticuloso.

Cartas ao pai natal. Um comboio elétrico para aquele, uma pista de carros para outro, a camisola de lã, o cachecol, o perfume. Uma interminável lista.

 E de repente no mesmo acordar todos na direção da missa do galo, três pais-nossos, duas ave-marias, a Ceia de Natal.

E o espelho na cómoda em frente, que te reflete.
O que irá refletir daqui por uns tempos?

 Neste instante tudo é serenidade, O mundo parece ter parado, Nem um movimento.
Contudo, se abrir o cortinado, reflexos no vidro do quarto.

 Até os murmúrios regressam, acompanhados pela minha avó espanhola.
- “Hola como estas “ – e uma chávena de chá segura por dois dedos e o mindinho esticado.

O Avô impaciente, deslocava-se como se patinasse.

As “tias” que acompanham a avó, recostam-se em poltronas com crochet´s de um lado e a boca revirada (para assuntos da vida de cada um), para o outro.

Isso e as dentaduras que abanam em sons de castanholas num “salero” de Vigo.

 E o eco dos passos de ninguém ressoava nas paredes enquanto a avó de mão em concha no ouvido esquerdo respingava…
- “ Que esta sucediendo niño ?”   
- “Oh Avó, foi um fantasma que arrastou os móveis contra a parede e atiçou os cães na rua “.


 E, as velhas inclinadas como o Titanic, quase a regurgitar veias e glotes em catadupa boca fora, estremeciam da resposta.

-“Sabes assobiar, não sabes? “Perguntava o Avô.

 Revisito o passado e hesito um novo olhar. Tudo parece mudado.
O naperon na mesa-de-cabeceira, o móvel com as fotos de família, a cor das paredes, até a cruz pendurada por um fio de contas no canto da cama.

Os dedos esticadinhos no pulso esquerdo sentindo o bater da vida. Mais forte, cadenciado, com ritmo.

 Eram dias invernosos, palavras e laços que se desatam, filigranas trabalhadas ponto a ponto e abraços com afectos.

E os nossos destinos longínquos, num caminho repetidamente traçado.
As mesmas paragens, a mesma língua de areia ao sul, que resiste à invasão do mar, o vento nas dunas, o rebentar das marés, o voo das gaivotas e a amêijoa aberta.

O lado negro da ria. Pescadores zangados, o vento que sopra solto, os progressos das ostras da Amélinha e o candeeiro a petróleo que te ilumina caminho. Até um dia.

Fantasmas vagueiam o pensamento e instalam-se na escuridão dos alertas.

Os dias não se esgotam no passar das horas. No inchaço dos meus olhos, na voraz idade que passa sem eu ver, paliativos na memória.

Os teus passos nos sapatos engraxados, aproximando-se devagar, como só tu. Com elegância.

 -“Sabes assobiar, não sabes?”

 E esta infância de correrias e trapalhadas e jogos e amizades profundas como se a dor ainda hoje nos apertasse uns contra os outros como nas filas, avenida abaixo na quadra do S. João.

Nós e as nossas vidas, os nossos fantasmas, os nossos velhos acoplados, mais a gaja do terceiro direito, deambulando para cá e para lá magnificamente como merda luzidia, onde a diferença disfarçava no hálito cúmplice dela, uma surdez galopante e os joanetes escondidos em pé atravancado.

E esta infância que muitos apagariam a mata-borrão e eu permaneço nela o tempo que for preciso para vos ver sorrir e gritar… “passa a bola”.

 -“Sabes assobiar, não sabes?”
     Sei, mas deixa ficar assim. 

19 novembro, 2016

A MEMÓRIA







A memória aparece intermitente nos dias que correm solarengos.

A memória dos mortos é mais viva do que quando estava com eles.

“Amanhã telefono-te. Sim, já gravei o número.
Não esqueças que temos de almoçar… este ano juntamo-nos todos antes do natal…”

As nossas conversas, encontros e reencontros ficam para depois. Nunca temos tempo, esquecemos rápido, e no entanto o tempo está aí.

Um dia temos tempo.

Sorrisos em câmara lenta, comboio no apeadeiro das sete.
As figuras, as vossas e as minhas, o passado no presente. As palavras.

Aos poucos e poucos vão aparecendo as primeiras ilhas. Ponto a ponto. Perfil a perfil.
Pequenos e imprecisos muros, delimitando jardins. Viramos, contrapomos edifícios, suspirando pelas imagens que se apresentam majestosas.

Uma longa avenida, dois a três candeeiros altos e largos, entre-cortados por outros pequenos e escondidos.

Igrejas e uma torre. Um monumento, mais uma capela e uma nave central cobrindo com feixes de luz restos de pintura nas paredes.

Gente que traz gente. Museus e mapas e uma praça literária com o privilégio do tempo certo na medida exacta do tempo.

“Amanhã temos futebol, para a semana discoteca. Não te esqueças…”

E nunca ninguém esquece. Porque esqueceríamos? 

E o tempo hoje calmo, fica agreste amanhã, mais a voragem dos dias que correm apressados como rio para o mar.

A vossa memória é mais viva hoje, do que quando estava com vocês.

Mulheres de histórias difíceis cheiram a sabão azul e branco. Gente a falar no interior das pessoas.

Palavras que não falam. Gestos reflectidos na dança e o vento que empurra as folhas no sentido oposto ao dos olhares que se perdem. Olhos parados de espanto.

Queixo a resmungar amiúde, espasmos na glote, olhos numa dança turva.

Micas, lembram-se? A beata-mor, assolava no largo fronteiro à capela. Arrastava um pé. O outro estica-se na passada.

“Dos tornozelos” – dizia ela, disfarçando quilos a mais que transporta consigo, e nós, miúdos, gaiatos que não pensavam nas coisas da vida.

O nosso mundo era a rua cravejada de pedra solta, os quintais vizinhos, as árvores, a bola rota, mais gomo menos gomo e os doces da D. Emília.

Era uma casa de rés-do-chão de duas assoalhadas e um quintal minúsculo. Uns bibelot´s, umas cortinas púdicas compridas com flores e travesseiros espalhados no sofá. 

A velha estagnada, lenta como um caracol, surda na conveniência.
Tem o odor confuso da idade, cheiro a canfora mesclado com o cheiro das pregas da pele. Voz arrastada entre a demência a ruindade escondida nos bolsos da bata preta.

E partimos sós, cada um para o seu tempo e o seu espaço com aquele até breve que nos enche o corpo, as mãos e os sentidos.

E são estes sabores amargos. Estas memórias em catadupa que nos inquietam o verbo, e a meninge.


A memória mantém-se intermitente e viva… pois temos sempre tempo… até um dia. 

ARROZ DOCE

A RROZ DOCE Era uma tasca. Tasca de coletividade nortenha. Povoada por novos e velhos, vizinhos e compadres, maduros e dest...