06 dezembro, 2017

DESORDENADA VIDA




 
Cheiro de loção barata para a barba, dentes postiços pontapeando as gengivas. Óculos como rãs saltitando entre as orelhas e a cana do nariz.
O globo ocular fora e dentro num estrabismo confuso.
 
As cigarrilhas do velho “Pastas” mexiam sozinhas, penduradas no lábio de baixo, agitando levemente o fumo, gotejando saliva, como cera em lacre.
Era este desaforido viajante, na insubmissão de quem não dorme na mesma cama que se agastava em gestos circulares, calcorreando a Praça Velasquez, pé direito-pé torto.
E aparecem assim, aqui e ali, outros velhos de barba grisalha e cabelo seboso sem pente, roupas bafientas numa opulenta miséria, garras em vez de dedos, coçando-se réstias de dignidade, sorvendo beatas apanhadas ao acaso em qualquer frincha dos paralelos de S. Bento.
No inverno quando o rio Douro se esbatia nas pedras da Ribeira, e com um olho espreitava o funicular dos guindais, graúdos gelatinosos como pirilampos sem luz, debitavam acordes grotescos enquanto a malta chapinhava nas poças de água e corríamos desalmados entre as vielas da Sé.
Os elétricos amarelos decoram Santa Catarina até Passos Manuel. Um tic-tic de arpas entoando melodias de um natal que se aproxima.
Vemos do alto do prédio janelas lascadas e madeira dobrada, amantes que se enroscam, quase sem braços, caricias exuberantes, gestos teatralizados, na sincera mentira daquela relação que não existe.
E era no ritmo sinuoso dos peitos esticados como guindastes, abóboras pequenas e saltitantes, que pecaminavam nos nossos olhos em órbitas como botões, interrompidos com guinchos metálicos do elétrico na complicação dos carris.
O tempo passa mole, escuro e peganhento adivinhando chuva, na simetria das pernas dos amantes em movimentos de cópula. E estendiam boca gulosa carregada de dentes encavalitados na direção da outra desinteressada, com desvios subtis, como fintas ondulantes do Maradona.
Juro que me parecia coberto de verniz, fumegando odioso num abanar absurdo de pavão com menos cor e elegância
E era na noite fechada, espreitando a claraboia do meu quarto que sacudia estes vultos do pensamento, rodeado de medo e escuro, ruídos brônquicos da minha vizinha Arlete, habitualmente inerte, insipida, insonsa, com ar insultuoso de buldogue, dando guinadas furibundas na casa de banho, até se deleitar noite fora, com qualquer beduíno de túnica comprida e brinco na orelha, amarrações no cabelo e barba mal parida.
O par de namorados, a arrulhar como pombos atrevidos, enquanto o escuro escondido atrás das nuvens, os protege e as luzes acendem, uma a uma vagarosamente como espasmos de tosse.
Amanhã, temos o ribombar das festas de um santo, lamparinas como balões, balões como naves voadoras, o beijo lambido da minha avó na testa como quem cola um selo e os chapéus do meu avô numa fila siamesa, moldura oval no móvel em retrato de família ”à La-minute”.
Isaltina, criada da casa, mais velha que o Cristo Rei, com metade da cara parada e a outra metade com tiques circenses, bojuda como um porquinho em dia de finados.
Saudades e lenços brancos pela janela do comboio. Despedidas do outro lado do vidro.
De tempos a tempos, uma cigarrilha na boca vazia de dentes, corpo de lagarta inerte numa folha, e adormecemos todos.
 O “pastas”, a Arlete, o Bexigoso, a minha avó e os putos enamorados presos por roldanas e batom num aproximar de hálitos, mais o comboio no primeiro apeadeiro.
 
E vemos do alto do prédio no silêncio da manhã, os socalcos do lado de lá do rio. Gente como barcos encalhados, rostos sobrepostos em camadas, transfigurados, e toda a desordenada vida pendendo do lábio de baixo, gotejando saliva, apagada também.
  

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