07 outubro, 2020

PINTAR A TUA ALMA

 

O cigarro no cinzeiro. O cinzeiro na mesa, a mesa que mexe.

A mesa no palco e o palco vazio. Vazio e escuro, frio e agreste como o tempo lá fora.

Crianças gritam com os pais. Pais aninhados na vergonha dos gritos dos filhos.

Cartas esvoaçam carregadas de mensagens a tinta elegante.

Já vejo o meu pai na minha pele e nas minhas mãos. Já vejo o meu pai em mim, nas peles dos dedos que vou mexendo, nas manchas do rosto. Pormenores que marcam o corpo e que habitam na memória.

Um Outono de sombras, despedidas vagas, o frenesim das vielas, um barco solto sem destino. Trôpego como bêbado.

O medo traz a noite aos dias.

Raivas no ar, nos volantes, nas redes, nos rostos. O sangue a fazer círculos nos olhos, raiando e fumegando, como se gritassem ódio.

Estou aqui e não estou. Quase de partida para um casulo doce e calmo.

A fase do desaparecer, de não existir. De ser apenas uma lembrança rápida como a neblina que nos cobre e se destapa.

Vontade de não ser ninguém. Um pedaço de nada. Um suspiro, talvez um sopro, um pedaço de sobras.

E depois, tantas palavras que me falam. Palavras loucas, palavras novas que não conheço, palavras sobrantes, palavras e mais palavras.

Um rio de palavras que não oiço, que não entendo, que pesquiso e não sei o que dizem.

Os olhos falam de cansaço. O rosto reflete-se nos olhos opacos que um dia disseram não aguento mais.

Porque ele já tinha visto tudo. A vida toda. Todas as belezas do mundo, todos os males do mundo, todas as pessoas e países.

Alfarrabistas de mentiras, odiosos de trincheira, cínicos circenses, mentecaptos de falas doces.

 O sono numa duração de segundos, e nesse tempo olho pessoas que não me olham, recebo cumprimentos que não respondo e acenos de gente que não existe.

Olham-me sem me olhar e sorriem sem qualquer movimento de lábios e boca.

 Sentem-se os passos do inverno cautelosamente chegando devagar. Veem-se as gradações de luz, filtradas por latões de cobre, fotos a preto e branco, senhoras de porte esbelto, cabelos garbosos, um relógio de corrente. 

Travestis corpulentos, viúvas morenas e rosadas com a menopausa pendurada no filtro dos cigarros. A dignidade difusa das putas e a iterícia lenta dos bêbedos em mijas desordenadas para as calças.

 Caretas desajeitadas, seios murchos e espremidos como palhinhas de refresco, corpos de veias quase sobrepostas como caudal de rios quando se encontram.

O cigarro no cinzeiro. O cinzeiro na mesa, a mesa que mexe. A mesa no palco e o palco vazio.

Estou aqui e não estou e por vezes nem sei se tenho tempo.

E é esse conjunto de palavras amontoadas, indecifráveis, cheias de códigos que não vislumbro. Coisas sem cheiro nem vida.

Agora estou por aqui e não estou…e por vezes nem sei se tenho tempo.




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